Colaboradores

A VIDA EM ARTE

 

2008 - TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

O ator é um privilegiado. Digo isso com sabores na boca: PRIVILEGIADO!

É o único ser que pode viver duas vidas. Não digo no sentido de viver personagens, mas ter, exatamente duas vidas. A sua própria e a VIDA EM ARTE.

Esta vida, a segunda, a vida em arte, também passa por momentos. A infância: o lúdico, a insanidade. O crescimento: os passos, as tentativas e as quedas. A descoberta: um amor tão intenso que o ator se doa de maneira como nunca mais se doará. O conhecimento e entendimento: as leituras, os autores, os clássicos mundiais, e o principal: a vivência, momento este, quando o ator está em cena, interpretando, criando, gozando da magia, experimentando todos os sentimentos, todas as dores, todos os risos, todas as mortes, todas as vidas, e então, o amadurecimento, quando ele, por mais inseguro que seja, e qual ator não é? Pode pisar no palco com a sabedoria de um ancião, e levar o público a acreditar na grande mentira, que é o teatro.

O ator maduro é aquele que acredita, verdadeiramente, na mentira que conta no palco.

O ator é assim, meio sem nexo, assim, assim... cheio de vida. Ah meu Deus, se todas as pessoas pudessem sentir o que sinto. Ah meu Deus, no palco me sinto perto de ti. Por que? Um ofício tão lindo, tão completo e tão difícil. Ao ver a maravilha de ser ator, esqueço-me do quão difícil viver da arte. Ah meu Deus, olhai pelos atores.

Por Lell Trevisan

Entrevista com Denise Del Vecchio

 

Entrevista com Denise Del Vecchio
Entrevista realizada por Lell Trevisan e Nanda Rovere. Denise Del Vecchio nos recebeu com toda simpatia e bom humor em sua casa.

Lell: Como o teatro surgiu na sua vida?
Denise Del Vecchio: Foi meio por acaso. Eu tive um professor de Geografia na escola, na Escola Estadual de Educação Prof Alberto Comte, lá em Santo Amaro, que amava teatro e, ao invés de dar aula de Geografia, ele levava os alunos para assistirem aos espetáculos de teatro. Garota com 14, 15 anos, fui pela primeira vez ao teatro assistir Morte e Vida Severina, que era a montagem que o Tuca tinha feito e levado para o Festival de Nancy. Eu vi no Teatro Municipal, nunca tinha visto uma peça teatral e fiquei alucinada. Meu pai nos levava ao teatro, mas para ver concertos matinais, aos domingos. O teatro de prosa eu ainda não conhecia e fiquei apaixonada por isso e me deu um desejo de estar no palco. Só que eu me achava muito velha para começar a pisar num palco. Vários acasos foram acontecendo, como um professor que ensinou, na escola Auguste, técnicas de Brecht e depois, com a minha turma de filosofia, resolvi fazer os diálogos de Platão encenados (fazíamos trabalho de grupo numa época em que a escola era muito fértil). A partir daí, comecei a me interessar por cursos de teatro. Fui fazer um curso do Emílio Fontana, no TBC, e depois de seis meses fui para o Teatro de Arena, onde tinha o curso do Boal, da Cecília e da Helene Guaíba. No Teatro de Arena eu me profissionalizei.

Lell: Você chegou a cursar História também?
Denise: Paralelamente eu cursei História; fiz dois anos. Eu gosto até hoje.

Lell: Como foi fazer parte do Teatro de Arena? Quais as lembranças que você tem de lá e como ele contribuiu na sua formação profissional?
Denise: No teatro de Arena eu fiz Arena Conta Zumbi. O Augusto Boal, e todos do grupo, foram a minha cartilha, porque eu aprendi tudo com eles. Eu tive sorte. Fazia o teatro-jornal com um grupo jovem, o Celso Frateschi, a Dulce Muniz, O Edson Santana, o Hélio Muniz e o espetáculo E Arena Conta Zumbi, com o Lima Duarte, o Antonio Pedro. Entrei nesse elenco bem garota, cantando no lugar da Cecília Tuim, que foi convidada para fazer um filme na Argentina, durante uma turnê do teatro de Arena no país.

Lell: A Dina Sfat fez parte do elenco, não?
Denise: Eu fiz depois que a Dina fez. Ela já tinha ido pro Rio trabalhar na TV Globo. A Zezé Mota também participava. A montagem em que eu participei foi depois da viagem do grupo à Argentina. Fomos abrir o Festival de Nancy, na França, e falávamos em francês. Eu não sei falar francês, mas decorei o texto todo e fiz. Aconteceram coisas muito mágicas na minha vida e a minha participação no Teatro de Arena foi muito importante. Ficamos até o fim (eu, Aruntim e Celso Frateschi), até o Arena sofrer a perda da Heleny, que foi presa e assassinada, e de Boal, preso e exilado.

Lell: E o nascimento do Teatro Núcleo Independente, no qual você atuava ao lado do Celso Frateschi? Como foi trabalhar com um teatro popular, na periferia de São Paulo?
Denise: Saímos do Arena e criamos o Núcleo. Quem nos alojou foi o Maurício Segall, no Teatro São Pedro, e apresentamos Tambores da Noite lá. A partir do momento em que saímos do São Pedro, num momento onde o Maurício foi preso e era difícil resistir artisticamente, nós conseguimos uma ajuda financeira de uma Ong holandesa, que ficou sabendo do nosso trabalho através de algumas pessoas e nos arrumou um dinheiro para nos mantermos. Nós alugamos o local onde hoje é o Café do Bixiga, que estava abandonado e infestado de ratos, e ali fizemos uma base.
Trabalhamos com uma espécie de teatro educação, fazíamos aulas com o povo da periferia, especialmente da zona Leste.
Fomos para a Penha e depois São Miguel Paulista, e o projeto sobreviveu durante uns dois, três anos.
As pessoas ali conheciam pouco o teatro e era um momento importante, onde não podíamos fazer grandes coisas por causa da ditadura. O teatro era um importante instrumento de discussão.

Lell: E como era produzir diante da censura? Como era a receptividade das pessoas?
Denise: A ditadura nos subestimava um pouco, porque o trabalho era periférico e não tinha grande projeção. Além disso, a ditadura brasileira tinha contradições. Por exemplo, o Secretário de Cultura do município de São Paulo era o crítico e professor Sabato Magaldi, que nos apoiava. Nós tiramos proveito dessas contradições para poder exercer o nosso trabalho. O Sabato dedicou uma página no Jornal da Tarde falando do nosso trabalho, cuja base era a criação coletiva (que hoje está voltando).

Lell: Até quando durou o Núcleo?
Denise: O Núcleo terminou um pouco antes de 80, em 78, por aí. Depois fiz uma peça da Leilah, chamada Vejo Um Vulto na Janela, e depois umas outras coisas, e surgiu Lua de Cetim.

Lell: Na sua trajetória você trabalhou diversas vezes com o Márcio Aurélio e encenou diversos textos do Alcides Nogueira. Fale sobre essas parcerias.
Denise: O primeiro encontro com o Tide foi na casa do Renato Borghi, onde fizemos uma leitura de Lua de Cetim, mas ele acabou não participando da montagem da peça. O Tide é o porta-voz da minha geração, o autor mais moderno que nós temos, no sentido de inovador. Ele é corajoso, ousado, com uma sensibilidade que tem tudo a ver com a minha. Eu adoraria fazer todos os textos do Tide.
O encontro do Tide e do Márcio é sempre muito feliz...
Parceria muito ajustada, porque são pessoas com as mesmas tendências, que têm o mesmo nível cultural e intelectual.

Lell: Você interpretou a poetisa portuguesa Florbela Espanca, outro trabalho com o Tide. Como foi a experiência? Você já conhecia obras da Florbela?
Denise: Eu não a conhecia. Entrei em contato com a obra através do Alcides e até hoje eu sonho em fazer a Florbela, apesar de não ter mais idade, porque ela morre com trinta e poucos anos, mas a obra dela revela que ela era muito madura pra idade dela.

Lell: O que você gosta de ler e que te completa como artista?
Denise: Eu gosto muito de ler Manoel de Barros, cheio de concretismo e muitos significados.
O Manoel é totalmente rural e ao mesmo temo trata as palavras de maneira muito concreta. Ele renomeia as palavras.

Lell: Manoel de Barros, como você disse, é rural...e você reside na Avenida Paulista. Como é isso?
Denise: Eu tenho fascínio pela Paulista. As pessoas acham que eu sou louca, principalmente os cariocas. Eu moro na praia de São Paulo. Estou em frente à Casa das Rosas, ao Itaú Cultural, eu tenho o Sesi, o Sesc e uma enorme encruzilhada cultural. Eu ando muito de metrô, ando muito a pé. Eu não paro em casa e posso fazer tudo usando o transporte público. É um privilégio poder morar numa região da cidade que é bem servida de serviços públicos. Eu morava na Cincinato Braga e me mudei recentemente para a Paulista. Foi uma descoberta maravilhosa, porque eu sempre morei na região de Santo Amaro e a minha vida era muito mais difícil.

Lell: Fale da Oficina Teatral, escola criada por você e pela sua irmã Alzira Andrade.
Denise: Eu participei do projeto inicial e às vezes ministro cursos e conversamos sobre o andamento da escola, mas ela exige uma continuidade que eu não tenho possibilidade de dar, porque os meus trabalhos são imprevisíveis. Agora acabei de fazer um espetáculo com o Ivaldo Bertazzo; ele me chamou uma semana antes e eu fiquei totalmente tomada por esse trabalho. Então, se eu tivesse compromisso de aula eu não poderia cumprir.
A idéia da escola partiu do fato de que a primeira coisa que as pessoas me perguntam na rua é como se faz pra chegar na televisão. A mídia valoriza demais os atores de televisão, mas queríamos mostrar que a profissão é muito mais do que isso.

Lell: Você vê no teatro um instrumento transformador?
Denise: Quando eu comecei a fazer teatro, eu acreditava nisso. Hoje se eu emocionar, sensibilizar uma pessoa, já fico satisfeita.

Lell: Como foi a emoção de ter a sua vida retratada no livro da Coleção Aplauso e escrito pela Tuna Dwek – que assinou os maravilhosos Alma de Cetim e A Emoção Libertária?
Denise: Já faz mais de um ano que nós terminamos o livro e ele ainda não saiu. Foi muito bacana. O que mais gostei foi perceber que a minha caminhada me possibilitou uma segurança no trabalho e o quanto foi difícil conquistá-la e provar a minha resistência dentro da profissão.

Lell: Você já dirigiu teatro, como foi a experiência?
Denise: Eu gosto de buscar o processo do ator, de ver como ele resolve a cena e ajudar no que eu puder. Eu não tenho a pretensão de ser diretora; sou atriz e posso dirigir eventualmente.

Lell: Na sua trajetória você tem conseguido fugir do chamado teatro comercial e realizar trabalhos que primam pela reflexão e por um conteúdo interessante.
Denise: Eu tive muita sorte, mas fiz algumas coisas que não gostei tanto. Quando me chamam para algo que não me dá prazer, não dá certo. A peça mais comercial que eu fiz foi Feliz Ano Velho e ela era maravilhosa. Ela não começou comercial, mas se transformou num enorme sucesso.

Lell: A receptividade para as duas montagens foi a mesma, por parte do público?
Denise: Não, o púbico já não tinha a mesma sensibilidade para a história, porque ele era um espetáculo para o público de 1980.

Lell: Percebo que os jovens vão pouco ao teatro. O Teatro das Universidades levava teatro a esses jovens, como foi participar do projeto?
Denise: Foi muito bom levar teatro aos jovens porque realmente os jovens vão pouco ao teatro e não é só isso: lêem muito pouco. Alunos de quarto ano de jornalismo, por exemplo, nos perguntaram o que é rapé, o que demonstra que nunca leram uma obra de Machado de Assis, nem José de Alencar...O Teatro das Universidades foi uma iniciativa maravilhosa do Paulo Goulart e da Nicette Bruno. Era um texto difícil, mas o Marcio Aurélio resolveu bem.

Lell: Paralelamente a um teatro mais comercial, o teatro alternativo tem conseguido chamar a atenção do público e da crítica?
Denise: Talvez o maior exemplo seja os Satyros na Roosevelt, que com espaços pequenos levam àquela praça um público considerável.
É um espaço importante que foi conquistado pelos Satyros e agora pelo Studio 184 e pelos Parlapatões. É um espaço importante de uma fatia de público satisfatória.

Lell: O que você tem visto e gostado no teatro?
Denise: O que eu vi ultimamente que me chamou bastante atenção foi O Púcaro Búlgaro, uma peça que ficou em cartaz no Teatro Sesc Consolação, dirigida pelo Aderbal Freire Filho. A Javanesa, texto do Tide, me emocionou muito, saí do teatro com lágrimas, muito emocionada ...

Lell: Você geralmente faz personagens sofisticados (não necessariamente ricos, mas com um conteúdo interessante; a que atribui isso?
Denise: Acredito que seja porque eu busco transmitir todas as contradições dos personagens que interpreto.

Lell: E interpretar um texto teatral para o rádio, como foi?
Denise: No rádio eu gravei há pouco tempo A Morte do Caixeiro Viajante, com o Antonio Petrin. Foi muito legal. Acredito que o projeto esteja continuando. Eu nunca tinha feito rádio-teatro e ler uma peça inteira e depois ouvir o programa foi muito bonito.

Lell: E o cinema?
Denise: Eu fiz algumas coisas, mas aqui no Brasil tem poucos papéis para a minha idade e quando aparece algum, já tem uma atriz certa para fazê-lo.

Lell: Como é atuar na televisão e lidar com a visibilidade, já que você disse que usa muito o transporte público, principalmente o metrô?
Denise: Não acho que o trabalho na televisão seja melhor ou pior do que o teatro, porque são trabalhos diferentes. A TV é uma forma importante de difusão cultural no Brasil, só que, como a mídia marrom privilegia demais, as pessoas acabam misturando tudo e se sentem no direito de invadir a sua vida.
Ando normalmente de metrô, algumas pessoas me olham, me reconhecem, mas não me abordam de maneira desrespeitosa.

Lell: Vários dos seus personagens na TV eram cômicos, madames (Bicho do Mato, Como Uma Onda, Chocolate com Pimenta e Força de um Desejo). Como trabalha o seu lado cômico?
Denise: Hoje em dia eu faço mais tranqüilamente uma comédia. Quando erramos no teatro ou na TV, o erro fica exposto, não é como num escritório, que você fica atrás de uma mesa e pode enviar os papéis numa gaveta ou jogar no lixo. Não tenho mais medo do ridículo, nem de errar.

Lell: Você tem contracenado com excelentes artistas nesses trabalhos...
Denise: Eu sou privilegiada porque a lista dos meus maridos na televisão e no teatro, por exemplo, é maravilhosa. Eu contracenei com os melhores atores do Brasil nessas novelas que você citou. Foi um orgulho ter um ator como o Hugo Carvana interpretando meu marido em Como Uma Onda. Também já trabalhei com Paulo Betti em Força de um Desejo, uma novela linda...

Lell: E Querida Mamãe, você tem projeto de fazê-la?
Denise: Eu estou compromissada com o Petrin para fazer uma peça, então eu não poderia agora fazer a peça e a Maria Adelaide já tem uma pessoa que quer montá-la.

Lell: Por falar em Querida Mamãe, como é trabalhar com o seu filho André?
Denise: Trabalhar com o André não sou eu que gosto, todo mundo gosta, no teatro e na televisão. Daqui a pouco eu vou virar a mãe do André porque ele um grande ator. É difícil para uma mãe falar, mas não sou eu que estou falando, as pessoas me ligam para falar.

* André, que estava visitando a sua mãe, disse ser uma pessoa privilegiada por ter pais maravilhosos, com tanto talento.


Denise Del Vecchio é mágica em cena. Talentosa e carismática vive os personagens com sensibilidade.

Sua trajetória é privilegiada. Fez parte do Núcleo do Teatro de Arena em São Paulo. Em 1971, participa do espetáculo Teatro Jornal 1ª Edição, encenado por Augusto Boal, e de Arena Conta Zumbi. No ano seguinte, faz Doce América, Latino América, criação coletiva.
Ainda em 1972, entrou para o Teatro Studio São Pedro, de Maurício e Beatriz Segall e encenou Tambores na Noite e A Semana - Esses Intrépidos Rapazes e Sua Maravilhosa Semana de Arte Moderna.

Em 1973 fundou, com Celso Frateschi, o grupo Teatro Núcleo Independente e depois seguiu carreira solo, com a realização de trabalhos de qualidade, realizando um teatro popular e voltado para a periferia de São Paulo.

Em 1979, iniciou carreira solo e atuou em Vejo um Vulto na Janela, Me Acuda que eu Sou Donzela (direção de Emílio Di Biasi).

Um dos seus maiores sucessos foi Lua de Cetim, de Alcides Nogueira (direção de Marcio Aurelio). A qualidade da sua atuação rendeu-lhe o Prêmio Molière de melhor atriz de 1981.
Depois de trabalhar com o Teatro do Ornitorrinco em Mahagonny Songspiel, participou de Feliz Ano Velho (direção de Paulo Betti e Lembranças da China (texto de Alcides Nogueira e direção de Jorge Takla), sendo agraciada com mais um prêmio - o Prêmio Governador do Estado.

Outros trabalhos: Electra, Vestido de Noiva, Florbela Espanca (texto de Alcides Nogueira), Três Maneiras de Dançar um Tango, Um Crime Perfeito, O País dos Elefantes.. Entre os mais recentes: Mar de Gente (direção de Ivaldo Bertazzo), Sossego e Turbulência no Coração de Hortência (Projeto Teatro das Universidades, onde atuou ao lado de seu filho André Frateschi), A Máscara do Imperador e Somos Irmãs.

Recentemente, realizou leitura do texto Querida Mamãe, de Maria Adelaide Amaral, ao lado de Tuna Dwek e sob a direção de seu filho, André Frateschi (ator, músico e diretor).
Além do sucesso no teatro, Denise tem uma interessante trajetória na TV. Foram muitas participações em produções importantes na história de nossa dramaturgia, como Bicho do Mato (Record), JK, Como uma Onda, Chocolate com Pimenta, Esperança, Força de um Desejo, As Pupilas do Senhor Reitor (SBT), A Viagem, Anos Rebeldes, Top Model, Fera radical, Os Imigrantes, Ídolo de Pano (a sua estréia).

¨Para mim, teatro era forma de agir no mundo, de transformar o ser humano. Continuo pensando que a arte tem esse poder, mas não da forma maniqueísta que eu acreditava naquela época(1970)¨

Lell Trevisan

A Cigarra e a Formiga - Nova Versão

 


2008 - TODOS OS DIREITOS RESERVADOS


Certa vez, não muito longe, e nem tão perto, havia um grupo de formiguinhas que trabalhavam dia e noite, sem cessar, durante todo o verão. Elas não paravam, mas ninguém sabia explicar de onde vinha tanta força.


Mas na mesma comunidade, havia uma cigarra, e ela não trabalhava, só cantava. Cantava dia e noite, sem parar. E quando o inverno chegou, a cigarra não tinha para onde ir. Desesperada, triste, com frio e fome, se sentou de baixo de uma árvore e ali adormeceu. Um das formiguinhas, ao olhar para fora, viu a cigarra, tremendo. 

Elas saíram, fizeram uma roda e disseram: Venha para nossa casa, lá é seu lugar, porque enquanto nós trabalhávamos, você cantava. E todas as vezes em que nós quisemos desistir, o seu canto e a sua arte nos animava e nos dava força para continuar a batalhar. Por causa disso, não desistimos, tivemos ânimo, trabalhos alegres. Obrigado cigarra, pela sua arte!


Então, as formigas levaram a cigarra para seu lar. No fim da noite, ouvia-se apenas muitos aplausos.


Enfim, esta é uma história real. Mas durante muito tempo, esta história não era contada desta maneira. Mas foi exatamente assim que aconteceu. Eu sei, eu estava lá.

Lell Trevisan

Frases Pequenas

 



"Somos muito mais parecidos e isso ninguém pode negar,

E chato dizer, mas não há ser humano
Que fique sem cagar.

E as mínimas diferenças...

... deveríamos respeitar."


Lell Trevisan

Pequenas Frases

 


"A Arte de representar está em primeiro lugar no amor. Amor pelo ser humano, pela arte, pela vida...” Lell Trevisan

Pequenas Frases

 

“O Teatro requer um conhecimento do espírito humano, e do ator o poder de transmiti-lo ao público de forma bela e verdadeira. Através do caminhar, do olhar, do falar, da expressão, o ator vive todas as vidas (existentes ou não), e tem o poder de rir e chorar todos os extremos” Lell Trevisan

Mínima Diferença

 



Não importa cor, sexo ou religião
Se uma faca transpassa um coração,
E este partido ficar
Neste caso em TODOS a morte virá,
Das nossas diferenças eu digo,
Há muito mais em comum do que se possa imaginar.

A diferença do negro pro branco: a cor, do espírita pro evangélico a crença, do homem pra mulher: o sexo. Do gay para o hetéro a condição sexual, do alto pro baixo o tamanho, do gordo pro magro: o peso. Do rico pro pobre o dinheiro.

Todos têm sede, fome, angústia, felicidade e amor
Em todos, se um corte fizer: sangue sairá,
E vermelho é a única cor que verá,
E todos, sem exceção, dor sentirá.

Se vem sobre um negro ou um branco a humilhação;
Acredite, HUMILHADOS ambos ficarão.

Não importa a raça, sexualidade ou posição social,
A morte para todos é um destino real.

Somos muito mais parecidos e isso ninguém pode negar,
É chato dizer, mas não há ser humano
Que fique sem cagar.

E as mínimas diferenças...
... deveríamos respeitar.

Lell Trevisan

O Adeus

 


O Adeus!

Eu vi, como não? Este seu sorriso, os lábios se esticando, mas seus olhos não sorriram. Sua face absurdamente desdenhava o que acontecia.
O lugar estava florido, águas com sal eram pingados no chão. Sussurros, pequenas palavras, olhares distantes, sem entender o por que. Você ali, não se mexia. Não agradecera as presenças e as lembranças trazidas de longe. Mas eu vi, um sorriso, talvez anunciando a minha chegada. 

Por que não me respondeu? Será preciso gritar? GRITEI! Ninguém me olhou. Nem você abriu os olhos. Deitada, e todos em sua volta cantavam louvores de adeus. Por que tua face é a minha? Todos me conhecem, mas por você choram, sem nem notar que aqui estou. Me sinto só. 

Tenho vontade de chorar, mas você ficou com as minhas lágrimas. Meus pés parecem não tocar o chão. Estou assustada.

Lell Trevisan

O Fim da Vida

 



Lutei grandes batalhas, venci o invencível. Não fiquei sentado vendo a vida passar. Mas é surpreendente e quase insano, pois parece que tudo o que fiz, foi pouco.

Criei gerações! Dei vida a seres humanos que deram vida a mais seres humanos. Li livros, assisti mais de mil filmes. Copas e mais copas do mundo foram realizadas, eu estava ali. Novos artistas nasceram e velhos partiram. Aplaudi muitos espetáculos de teatro. Meus pés pisaram muitos chãos. Pessoas eu conheci, não foram dez, não foram cem e nem foram mil. Trabalhei muitas horas, muitos anos. Já me despedi de grandes amores. Paixões e amizades partiram sem nem uma palavra de adeus!

Hoje estou só. Minha presença não é interessante. Não querem ouvir o que tenho para falar. Não querem aprender o que muito poderia ensinar.

Canto e só ouço uma única voz: a minha!

“Parabéns pra você... Nesta data querida... Muitas felicidades... Quantos mais anos de vida?”

Lell Trevisan

Pequenas Frases

 

“O ator é um santo na terra que exercendo do seu dom restaura a vida do homem.” Lell Trevisan

Pequenas Frases

 

“Não importa cor, sexo ou religião Se uma faca transpassa um coração, E este partido ficar Neste caso em TODOS a morte virá, Das nossas diferenças eu digo, Há muito mais em comum do que se possa imaginar.”


Lell Trevisan

Pequenas Frases

 

“O teatro é um oráculo onde o ser humano pode encontrar respostas para sua vida e se redescobrir sempre.” Lell Trevisan

Não há sentido na vida - Conto

 

Não, não posso pensar de que forma a vida nos faz sentido. Não, não há sentido nela. A vida é algo estranho, nos é dada de tanta alegria e nos é tirada com tanta tristeza. A dor do amor nos faz refletir, perder a cabeça por você. Não, não sei de que forma encontrar saídas, há uma grande dificuldade de se viver. Não há ar sem você, não há vida sem a sua. Como viverei com este buraco? Como meu Deus, viverei com este punhal cravado em meu peito? Cravado de maneira desrespeitosa, que me faz morrer lentamente, mas morrer lentamente é uma grande tortura, leva-me amor, não me deixe neste planeta de crueldade, de animais perigosos e altamente mortais chamado ser humano. Não quero viver assim, não sei o que fazer, não sei se saio ou se me recuo em um quarto frio e úmido, molhado de tanta lágrima de fogo. Falta-me o ar, falta-me a vontade de estar aqui, ali ou em qualquer lugar. Tenho medo. O desespero me toma por dentro, entra nas veias e passa por todo meu corpo. Estou no alto, aqui venta. Um vento frio que diz que tudo passará, se lentamente meus dedos obedecerem meus comandos de soltar aquilo que segura meu corpo nas alturas. Meus dedos estão suando, minha vista já escurece. Estou indo para te encontrar, não encontre outro amor, seja onde esteja, estou chegando. Estarei livre da peste do mundo, que é estar sem seu calor. Meus dedos já não seguram, escorregam, escorregam...

Por Lell Trevisan

Desilusões - Conto

 

Corro! Tento alcançar um destino, na qual não sei bem qual é. Olho o lago frio que ali está. Olhar o lago, congelado, parece ver meu coração. Olhar o lago, assim tão só, parece ver-me. 

Corro! Mas no entanto, não sei se estou indo, ou se estou vindo. Não vejo sentido, nem razão. Às vezes, na insônia da noite, grito, só para ouvir meu eco. 

Corro! Já nem me lembro do que, mas corro, com muita voracidade, anseio chegar com pressa. Espero que a lugar nenhum. Fujo do ser humano, já não há esperanças.

Conto! Diversas histórias, minha cabeça parece não estar no mundo real, meus olhos parecem ver o irreal. O mundo na qual escrevo, é um lugar de comunhão, de aceitação, de amores e respeitos.

Conto! Até dez, e se nada de novo me acontecer, me jogarei aos braços do lago frio, no mais profundo e irei procurar um novo mundo.

Conto! Falta um pra dez, nada aconteceu, nada acontecerá.

DEZ!

Dama da Noite - Conto

 

Abro os olhos na escuridão em que me encontro, vejo pessoas, lugares que talvez nunca tenha visto ou pisado. Ouço uma música tocada ao violino vinda de longe. Quero andar, mas no escuro o medo me apavora. Tenho vontade de gritar, mas a essas horas da madrugada receio causar-me problemas. Penso que seja madrugada, pois está escuro. 

Nem a lua apareceu, ela junto com todos, conspira para uma solidão. Dos meus pensamentos, nasceu uma senhora, usa belos chapéus, o corpo contornado como um desenho feito por um maravilhoso desenhista de quadros gregos, seus seios são duros e pequenos, sua face de menina e corpo de mulher, os olhos são como duas chamas, que acendem e clareiam qualquer escuro, seus passos são como um flutuar, seu cheiro atravessa a rua e entra neste quarto, um cheiro doce que esconde o mofo deste lugar. 

Sempre na noite ela vem, vejo-a através do clarear tímido da lua, que segue seus passos e a leva com segurança em seu destino, mas parece que hoje, tal como a lua, não me deu o ar de sua graça. Se for dos meus pensamentos que vem a Dama da Noite, porque hoje não me apareceu? 

Talvez a senhora exista de fato, e oro para que seja verdade. Anseio vê-la, com pernas tremulas e meu peito disparado como uma bomba a ponto de explodir fico sozinho nas trevas da noite. Ficarei louco caso não venha mais passar por esta rua. Sua presença me preenche, não preciso de mais nada. Nem de que ela exista.

Lell Trevisan

A Morte de César - Conto

 

A Morte de CÉSAR

Copyright by Lell Trevisan 2008
Todos os direitos reservados.


A sala estava escura, e da janela via-se a água da chuva escorrer pelo vidro. Eu já estava em silêncio há vários minutos. Na sala a única coisa que se ouvia era o tic tac do relógio, e às vezes um respirar forte que não era o meu. Eu estava semi-deitado, meu corpo contraído, e eu não conseguia relaxar nem por um instante se quer. E os minutos iam passando, e eu preocupado porque queria, na verdade queria não, eu tinha que falar. Mas eu não sabia por onde começar. Foi quando pensei, pensei e falei: “Essa chuva não?” E voltei a me calar. Novamente ouço um respirar forte, que há tempos me incomodava, mas percebi que este respirar era o meu. Respirei e me preparei para falar, e quando fui soltar ao vento as primeiras palavras deu um relâmpago seguido de um trovão, que me fizeram calar. Minhas mãos não paravam, o tempo inteiro eu as mexia, e às vezes estralava os dedos, ou coçava uma mão depois a outra. Tinha uma luz fraca, que dava em cima de mim, e eu olhava aquela luz buscando a imensidão dos meus pensamentos. Meu corpo estava inquieto e quando ela ao perceber de meu nervosismo falou: (Decisiva)  “Fale de sua infância”. Meu coração disparou ao ouvir sua voz e então comecei:

“Estudava num colégio particular, não éramos muito ricos, mas papai e mamãe sempre se esforçaram por toda a vida para que eu e minha irmã mais nova não passássemos pelos mesmos problemas que eles passaram na infância, pela falta de oportunidades que tiveram devido à falta de estudo. Papai se formou na faculdade já casado e com seus dois filhos. Ele se formou em direito e dizia para mamãe que seria o mais famoso advogado, e que nunca entraria para o lado “mal” como dizia ele. Mas não foi assim. Papai depois de formado trabalhou muito e quase nunca recebia o prometido, era um exemplo no que diz respeito a caráter, e com a falta de dinheiro ele começou a fazer coisas erradas, ele dizia que era o que todos faziam e então começou a entrar dinheiro fácil em casa. E as oportunidades para papai começaram a crescer, e ele então passou a viajar muito, ficava dias e às vezes semanas sem nos ver. Quando voltava para casa já não tinha paciência conosco. Todas as noites no meio da madrugada papai ia se deitar na sala e antes que nós levantássemos, ele voltava para o quarto, ele achava que eu não sabia que ele e mamãe já não se entendiam juntos. Um dia papai teve uma briga muito feia com mamãe, claro no máximo de silêncio possível, eles tinham muito medo de mostrar a mim e minha irmã de seus desentendimentos. No outro dia papai foi parar no hospital por um problema grave de saúde, depois de ficar meses internado ele voltou para casa e mamãe cuidou dele até o ultimo dia de vida, o que não demorou muito. Ele tinha feito um seguro de vida e com esse dinheiro mamãe foi estudar e se formou em geografia e se tornou uma professora exemplar e ganhava muito bem, e juntando com o dinheiro da pensão que recebíamos sempre vivemos muito bem. Minha irmã Dórys quase não se lembra de papai, e mamãe sempre pensou que eu também não me lembrava e falava dele como se fosse a pessoa mais maravilhosa deste mundo, e nunca nos contou que o problema de papai não era tuberculose e sim AIDS. Nessas viagens, ele mantinha relacionamentos. Meu pai e minha mãe não tinham relacionamento sexual e quando papai soube que tinha esta doença fez minha mãe fazer os exames e não dormia com ela para que não caíssem em tentação e colocasse a vida dela em risco já que a sua não restaria muito, ainda mais naquele tempo em que não havia um tratamento. Mamãe nunca soube que eu sabia de tudo, e por causa deste acontecimento nunca tive interesse em conhecer garota alguma, pelo contrário, tinha ódio de todas, porque eu sabia que se não fosse pelas garotas papai não tinha morrido. Na sétima série no meio do ano letivo veio uma garota e entrou para a nossa sala, mamãe era nossa professora de geografia. Eu me apaixonei pela adorável e meiga Ducy. Tive ódio de mim, não podia querer uma garota, mas eu a vi como um anjo e sabia que ela era diferente de todas. Só fui arrumar coragem de falar a primeira palavra a ela na oitava série, e ainda sim obrigado, ela me perguntou se eu emprestava a ela um lápis e eu disse: “Claro!” Voltei a falar com ela novamente no primeiro colegial, mas não estávamos na mesma sala.”

Parei de contar a minha história para esta mulher na sala. Respirei para continuar já me sentindo um idiota quando ela disse: “E aí? Continue sim?!” Meu Deus quanta besteira, pensei. Não conseguia colocar minha mente e minha fala em equilíbrio, pensava para falar, mas falava sem controle. Não sei ao certo se ela estava entendendo o que eu dizia, porque eu não entendi foi nada. Até disse isso a ela seguido de uma risadinha, mas ela ficou imóvel e eu sem graça. “É brincadeira!” Tentei concertar. Então resolvi continuar, primeiro puxei o ar bem forte e soltei vagarosamente trazendo a minha mente do momento em que parei a minha história:

“Lembrei! Eu estava numa sala e ela na outra. Sala de aula eu estou falando, viu? Então... Ducy era uma garota diferente, não sei se era mesmo ou eu a via diferente das outras, sei lá. Quando a conheci era uma garota tímida, não tanto quanto eu, mas era. Delicada, sensível... Meu Deus quem diria? Quando as aulas começaram, eu estava viajando, minhas férias se prolongaram um pouquinho. Mas que férias, foi numa fazenda de uma amiga da minha avó. O ano letivo começou e eu nem percebi, estava lá apaixonado pela natureza, pelos animais. Bem cedinho vovó ia lá no quarto chamar eu e Dórys para tirar leite da vaca, ela fazia a gente beber na hora, no inicio foi nojento, mas depois você vê que é a coisa mais gostosa do mundo. Meu avô me levava toda tarde para pescar. Contava-me várias histórias. A gente mais conversava do que pescava, ele pegava no meio do caminho algumas canas, e cortava na hora. De noite vovô sentava no piano e tocava algumas músicas e nós: eu, Dórys, mamãe, vovó nos sentávamos em volta dele. Eu e a Dórys sentávamos um de cada lado da mamãe, ali encostávamos a cabeça em seu peito e fechávamos os olhos, Dórys pegava no sono logo, e eu ficava pensando. Pensava em várias coisas, até que eu um dia eu iria voar, eu sempre acreditei que eu tinha algum poder. Às vezes eu abria os olhos e via algumas lágrimas saindo dos olhos de minha mãe. Então eu parava de pensar que poderia voar e ficava imaginando o que eu iria fazer da minha vida que a deixaria mais feliz. Algo que ela se orgulhasse de mim, e não sofreria mais pela falta de papai. Aquelas foram nossas ultimas férias juntos e os últimos meses do vovô, ele veio a falecer tempos depois. Vovó ficou arrasada, ela dizia que ele era seu porto seguro, seu chão. Nunca mais eu vou esquecer aquelas cenas da gente juntos abraçados, chorando e cantando, e no final terminava com muitas gargalhadas. Mamãe dizia que a gente abria o “risador” e o “chorador”.  A Dórys acordava com medo no meio da madrugada e ia se deitar ao meu lado, eu cuidava dela. Dizia que era mais forte que tudo, e ela acreditava. Todas as noites antes de ir dormir, eu ia em seu quarto, dar um beijo para dormir. Minha mãe dizia que eu era um anjo. Um anjinho que Deus enviou a terra para cuidar delas. Isso é um tormento, essas imagens me vêem a cada momento, eu não agüento mais... não tive culpa, não tive culpa!”

Neste momento caí no chão de joelhos gritando e chorando. Não conseguia mais contar minha vida para esta mulher. As imagens não queriam sair da minha mente. Toda vez que essas imagens aparecem eu sinto muita dor, como se meu coração estivesse em fogo. Imagens que me atormentam. Ela tentou me acalmar, mas sem sair de sua cadeira. Pediu que eu voltasse a me deitar, voltei. Fechei os olhos e chorei. Chorei um choro de dor, de pranto, de culpa. Chorei como há muito tempo não fazia. Na sala só se ouvia o barulho da chuva e o meu soluçar. Fui me controlando e ela pediu para eu continuar: então continuei a história:

“Eu cheguei à escola e as aulas tinham começado já fazia algumas semanas, e eu me lembro que quando entrei na escola me deparei uma multidão e algo me chamou atenção: era Ducy numa rodinha de garotos e todos estavam fumando, inclusive ela. Eles estavam tão alegres, riam tanto, como eu almejei estar naquela rodinha. Passei por ela esperando que falasse comigo, mas ela nem me olhou. E isso permaneceu por dias e dias, pensei em alguma forma de chamar sua atenção, na verdade não só a dela mas, da sua turma também, todos na escola falavam deles, da forma desbocada em que respondiam aos professores, dos cigarrinhos, mas nada foi tão falado de quando eles chegaram bêbedos no colégio, foi aí que pensei, eu preciso entrar para este grupo. Eles são famosos na escola, queria fazer parte. Um dia ela estava lá sozinha, olhando pro nada com seu cigarro entre os dedos, ela usava um cachecol vinho, fazia muito frio naquele dia. Eu fiquei de longe observando, e criei coragem, e fui falar com ela, me aproximei, calado, fiquei de frente a ela e não sabia o que dizer. Ficamos por alguns momentos olho no olho, quando ela disse: “César! Meu Deus o que você está fazendo aqui?” Eu disse: “Eu estudo aqui”. O pior foi ela ter perguntado se eu tinha entrado naquela semana. Ficamos sem assunto, bem se eu falasse para ela de como eu estava gostando das aulas de português, e que os assuntos abordados nas aulas de história estavam muito boas, ela ia me achar muito careta, então não disse nada, e nem ela, me virei para ir embora e ela o mais rápido me ofereceu um cigarro. Dizer que não fumava? não podia! Eu disse: “hoje não! Acabei de fumar”. Naquele dia fui para casa pensando nisso, e se ela no outro dia me oferecer um trago? Passei num bar no centro da cidade e comprei um cigarro avulso. Pensei em jogar fora no meio do caminho, minha sempre conversava com a gente os perigos do cigarro, mas não joguei. Na madrugada daquele dia, me levantei, verifiquei se todos estavam dormindo, tranquei a porta do meu quarto, peguei aquele cigarro e o coloquei em cima da minha cama. Passei quase duas horas olhando para ele e resolvi acender. Corri para a cozinha, peguei um fósforo e fui para o quarto, acendi e dei o primeiro trago, quase morri engasgado, comecei a tossir muito, minha mãe foi até a porta para saber se eu estava bem, fingi que sim e pedi a ela que voltasse para a cama. Tentei mais algumas vezes, e quando estava me acostumando com aquela fumaça passando em minha garganta, o cigarro acabou. Fui para o colégio no outro dia, numa dor de cabeça, com muito sono e mal coloquei os pés no colégio a Ducy veio em minha direção e me apresentou para a galera que, ao me olharem, imaginaram que tive uma grande noitada e eu confirmei. Naquele dia não entrei em nenhuma aula e fumei quase que um maço sozinho. Como eu passei a ser percebido depois de um tempo, aquilo para mim era a glória. Todos me conheciam, sabiam meu nome, gostavam de mim. Saia da escola e ficava até de noite com meus amigos, fumando, mexendo com as pessoas nas ruas. É claro que não vou ser hipócrita de dizer que foi o cigarro, que foi minha carência ou que foi por causa do amor por Ducy. Mas depois daquele dia minha vida passou a ter um novo rumo, bem diferente do costume. Eu passei a querer liberdade. Escolhas, sabe? Entrar na aula, ou não. Mas era sempre não. Nunca entrar na sala. Eu e minha mãe, que era a minha melhor amiga, não me entendia, e não compreendia que eu estava crescendo, não tínhamos um convívio sadio, acho que nem respeito existia mais entre nós. Ela se tornou chata. Eu ficava imaginando, ou melhor tentava imaginar o que tinha acontecido com ela. Não só ela, mas Dórys, vovó, o vovô que ainda estava vivo, os professores, os antigos amigos, os vizinhos, o mundo já não era mais o mesmo. Todos cobravam coisas de mim. Que saco. As pessoas mudaram e eu não podia ser mais tolerante, eu me vi no meio de uma selva e precisava sobreviver e cada pessoa era um risco que eu corria de ser atacado. Vi-me sozinho no mundo, não tão sozinho, pois eu tinha os verdadeiros amigos, que me entendiam, e me ensinaram o lado legal da vida, que me mostraram o verdadeiro prazer de se viver. Passei do cigarro a beber num barzinho de frente ao colégio, o dono de lá era bem legal e vendia bebida para menores. Um dia cheguei um pouco alegre em casa e minha mãe veio me chamar atenção, novamente, conclusão: brigamos. Ela veio com cobranças, disse que não precisava dela para me tornar alguém, que a vida é que nos ensina a vivar. Mandei até ela tomar no cu, e fui para o quarto. Levantei para beber água, naquela noite tive uma sede do cacete, quando cheguei na sala encontrei minha mãe ajoelhada chorando – “O que foi sua louca? Vai ficar aí parecendo uma débil mental é?” – gritei com ela acordando minha irmã e meus avós. Vovô veio pedir que me acalmasse, disse que não precisava de um velho a beira da morte falando na minha cabeça. Porque eu não me calei? Porque? Eu podia não ter feito isso, eu podia ter ido calado a cozinha, mas não eu só piorava. Eu falei muito mais, disse coisa que não diria nem a um inimigo, e minha mãe não disse nada! Ficou calada, só chorando enquanto ouvia-me dizer aquelas besteiras. Calada, acredita? Quando terminei de falar tudo, entrei para o meu quarto sem beber minha água e bati a porta, neste momento eu a ouvi  gritando em um choro que chegou realmente a me tocar, fiquei arrependido, de verdade, mas não podia mostrar isso a ela, aliás, a ninguém. E perder tudo que estava conquistando!?”

Novamente não consegui prosseguir com a história e perguntei a mulher da sala: não tenho cura não é? Pode falar.
E ela me disse: Não é a cura que estamos procurando em você. Eu quis saber o que era, e ela não me respondeu, pensei: Isso faz parte da psicologia, só pode. Perguntei se devia continuar, ela disse que não, pediu que eu voltasse no outro dia. Quando saí, dois homens vieram me buscar e me levaram a uma sala sem nada, toda branca, sem janelas, somente umas pessoas estranhas, não sei explicar em que eram estranhas, mas eram. Não falavam a minha língua eu acho, pensando bem eles não falam língua nenhuma, algumas gritavam muito e choravam também, ficavam sentadas no chão, fechei meus olhos e quando abri, segundos depois, aqueles homens estavam na porta e disse que era a minha vez. Perguntei se não era para o outro dia e eles não me responderam, retornei a sala daquela mulher, me deitei e logo fui perguntando se minha história estava tão interessante que ela nem agüentou esperar até o outro dia, ela disse que não sabia do que eu estava falando e pediu que eu continuasse do momento em que bati a porta do quarto e minha mãe soltou aquele grito de misericórdia:

“Ta bom, eu vou começar, só estou meio confuso, aquelas pessoas, o lugar, mas enfim. Bem, como eu tinha falado fechei a porta e ela gritou chorando, me arrependi, mas não voltei atrás e me impus. Naquela noite não preguei os olhos, uma que eu não quis sair do quarto e estava morrendo de sede e outra pelo transtorno que houve em casa. No outro dia fui para a escola, decidido que ia beber muito, queria esquecer as chateações, eu precisava e merecia de um divertimento, já que não existia mais, ou melhor se é que houve alguma vez na minha vida um momento divertido. Pelo menos eu pensava assim. Eu nem lembrava mais de como eu fui feliz com minha família, mas... continuando, eu nem entrei na escola para ver a galera, preferi esperá-los no bar enchendo a cara. Mas bebi tanto aquele dia, tanto que quando o pessoal chegou, eu nem abria mais os olhos...”

Interrompi a história, e neste momento eu caí em risos, caí mesmo, no chão, me lembrando de como foi engraçado eu não conseguir abrir os olhos, mas ela, a psicóloga, acho que é uma psicóloga, não deu um sinal de ter achado graça. Fiquei sério, me deu um nó na garganta, uma vontade terrível de chorar, não simplesmente chorar, mas chorar e poder abraçar uma pessoa que eu confiasse, seja minha mãe, a vovó ou até minha irmãzinha. Coloquei as mãos no rosto enquanto as lágrimas escorriam pelo meu rosto, não queria que ela me visse chorando. Ver-me lá, sozinho era assustador, eu tive medo, a solidão tem um gosto muito amargo e uma dor muito violenta na alma. Enquanto eu chorava, ela não dizia nada, ficou em silencio, talvez respeitando aquele meu momento de tristeza, se bem que aquilo não era tristeza, era arrependimento. O tempo passou e ela disse para eu prosseguir, eu não queria mais, eu só queria ir embora, queria muito ver minha família e pedir perdão. Eu não sabia nem como eu tinha parado naquele lugar. Não me lembro de ter chegado. Respirei bem fundo, fechei meus olhos bem fortes, sequei as ultimas lágrimas e voltei a contar:

“Desculpe! Eu me excedi um pouco. Bebi muito mesmo, tentei me recuperar mas não deu, porque toda hora alguém me trazia uma bebidinha ou cigarrinho. Passou um tempo entrou minha irmã no bar chorando, ela dizia que estava me procurando há horas na escola, tentei perguntar rápido o que tinha acontecido, mas minha língua parecia que pesava vinte quilos e dicção não existia mais nos meus lábios, antes de conseguir terminar a frase ela disse que vovô tinha morrido. Caí sentado com as mãos na cabeça e fomos para o velório que já estava acontecendo, cheguei bêbado que não conseguia parar em pé e falando alto. Mamãe estava em pé ao lado fazendo carinho no rosto de vovô, minha avó estava sentada, de cabeça baixa, ela chorava muito. Nunca derramei uma lágrima por causa da morte dele, e olha que ele era nossa paizão, ele realmente tomou o lugar de papai para cuidar da gente, eu o amava muito. Quase matei minha mãe de vergonha, estava a família toda, minha mãe chorando disse que eu não estava respeitando a dor de ninguém, e parecia que tinha me esquecido de tudo que ele tinha feito por mim, ela tinha razão, quantas vezes não sentou na beira da minha cama para me contar histórias ou cantar minha música favorita, mesmo cansado, fadigado, lá estava ele fazendo seu papel de pai mesmo não sendo, de quantas vezes trabalhou até tarde para me dar o carrinho que batia e virava cambalhota que eu tanto quis, ele chorava por não poder me dar e resolveu dobrar seu trabalho e apesar da idade não descansou até realizar meu sonho, um dia ele trouxe uma caixa embrulhada em papel presente e colocou de baixo da minha cama e quando cheguei da escola disse que era para eu ir procurar uma coisa pela casa, enquanto eu procurava, ele dizia: “está quente ou está frio”, e quando achei, abri a caixa numa voracidade e vi o carrinho que muitas vezes sonhei e comecei a chorar, ele se sentou do meu lado com os olhos em lágrimas, eu o abracei chorando que minha voz nem saia para  agradecê-lo, de tanto que eu estava feliz, ele me apertou em seus braços e chorou, feliz de me ver feliz. A alegria dele era nos ver bem. Minha mãe terminou de me lembrar disso e de outras coisas importantes, e de fato me tocava, eu só soube responder uma coisa: “morreu, morreu, não tem jeito”, ela me virou um tapa na cara, e eu saí, me apoiando nos lugares para não cair e fui para a rua. Foi a primeira vez que ela me bateu. Eu nunca tinha levado um tapa na cara. Caminhando me sentia culpado de não chorar, mas como? se nem pensar eu conseguia de tão travado que eu estava. Sentei na calçada e adormeci, fui despertado pela Ducy e por mais dois companheiros, ela disse que tinha um homem bem vestido, de terno preto, vendendo uma coisa legal na porta do colégio e me chamou para ir lá com eles, e disse que aquilo era ótimo para me fazer esquecer de qualquer problema. Fomos até a escola e fomos comprar o baratinho de que estavam falando, mas eu estava sem grana, e este homem disse que era de graça, mas só a primeira, e me deu um pacotinho de erva, um amigo bolou e fomos à praça, quando terminei de fumar eu ri muito, eu me sentia o cara mais feliz do mundo, nem lembrava que naquele instante estava acontecendo o velório de meu avô, foi muito engraçado mesmo, quando uma pessoa falava parecia que tinha umas dez falando ao mesmo tempo e eu não conseguia entender nada, terminamos nosso momento de alegria fui para casa. Abri a porta, estava minha irmã deitada com a cabeça sobre as pernas de minha mãe enquanto esta fazia carinho em sua cabeça e ambas choravam enquanto falavam do vovô, no sofá grande estava minha avó dormindo, aquilo me marcou, porque enquanto ela dormia, escorri lágrimas em seu rosto, mas eu não pensava em outra coisa a não ser comida, que fome que eu estava. Na cozinha não havia nada para comer, abri um pacote de biscoito e me sentei à mesa e fiquei pensando, mas meu pensamento não tinha nada nele, pensava por pensar e me dei conta que minha mãe não falou nada comigo, passei o dia na rua, saí do velório daquele jeito e ela não me chamou atenção, percebi que a liberdade que eu tanto queria já estava começando a existir, passei pela sala e nada, fui pro quarto e resolvi passar novamente pela sala, passei e nem uma palavra a mim. Eu estava sozinho, elas me odiavam, sei lá o que tinha acontecido, mas era exatamente o que todos da escola ou pelo menos a galera queria que acontecesse com eles, pois é comigo aconteceu, liberdade! Arrumei-me e saí de casa, saí andando vagarosamente para ver se ela me chamaria, brigaria, sei lá. Cheguei ao portão e nada. Então saí. Vovó passou a morar conosco. Depois da morte do meu avô.”

Parei de contar a história, me deu sono. A psicóloga não falava absolutamente nada. (irônico) Psicóloga! Ela só me ouvia. Coloquei as mãos no rosto e bocejei, perguntei se podíamos parar por ali e voltar a nossa conversa no outro dia, ela disse que sim pois, já estávamos ali conversando há muitas horas. Ela chamou um homem e pediu que me levasse até meu quarto. No caminho do quarto eu disse a ela que se caso ela se arrepender e me chamar antes do outro dia para ele nem ir me chamar que eu queria dormir, ele não me respondeu nada, novidade. Entrei no quarto estava faltando uma pessoa, perguntei sobre ele, mas aquelas pessoas insistiam em falar em outras línguas, aquilo começou a me irritar e resolvi fugir, abri a porta o quarto e saí correndo por aqueles corredores, mas não havia portas, era uma parede branca por todos os lados, quanto mais eu corria mais paredes brancas eu encontrava. Parei, me sentei no chão sem ar e de repente eu ouvi uns gritos e essa pessoa falava minha língua, ela dizia: “Não eu quero ficar, não quero ir agora eu tenho muito que fazer” e soltou um grito que foi sumindo de vagar até voltar ao silencio total que se encontrava a poucos naquele lugar. Dei uns passos e dei de cara com o quarto, o meu quarto. Entrei, sentei-me no chão, fechei os olhos e novamente aquele homem entrou no quarto e disse que ela estava a minha espera. Eu fiquei bravo, disse que só amanhã. Mas ele veio até perto de mim e quando pisquei apareci na sala dela, parece mentira, mas é verdade, eu tenho certeza, estava lá, sentado, no chão, disse que não iria para a sala dela, e de repente eu estava no divã, de frente para aquela mulher, e o que já estava estranho para mim, passou a ficar assustador. Não entendia, aquele lugar, as pessoas, esta mulher, que fazia questão que eu contasse cada detalhe. Levantei-me, mais do que de pressa, e disse que só continuava se ela me desse algumas explicações, eu estava confuso, como que não havia portas naquele lugar, onde levaram aquela pessoa que gritava a poucos e porque eu mal entrava no quarto ela já me chamava para continuar. Ela riu, pela primeira vez, de fato era um riso meia boca e disse que não sabia do que eu estava falando. Não sabia, ela queria, era me confundir mesmo. Sua função era me deixar louco. Perguntei se ela queria me curar ou me enlouquecer e ela disse que eu não estava ali para ser curado e que minha função ali era contar a ela, tudo. “Sua avó passou a morar com vocês e daí?” ela já foi dizendo. Não tinha jeito, continuei a minha história:

“Bem o tempo foi passando e o que eu precisava antes para ficar loucão e relaxado não me fazia mais efeito, minha mãe não me dava mais dinheiro, e a vovó tinha muitas jóias, jóias que ela recebeu de sua mãe ou presentes que o vovô tinha dado a ela. Suas jóias foram sumindo, eu precisava de dinheiro ninguém me dava. Minha mãe todos os dias entrava no meu quarto, ela achava que eu estava dormindo, ela entrava, sentava na beira de minha cama e fazia carinho e dizia que me amava, que o que ela mais queria era aquele garoto engraçado, amoroso, que respeitava as pessoas de volta. “Você é a herança que Deus me deu, eu nunca vou desistir de você, onde está meu filhão? Onde está o meninão que me abraçava e me pedia a benção mesmo que fosse até o portão? O homem sensível que chorava por causa da desigualdade, do sofrimento alheio. Cadê você meu filho, que eu procuro e não encontro mais. Eu preciso de você, eu sinto muito a sua falta. Você está fazendo igual seu pai, me deixando. Não deixe ser hereditário essas coisas ruins de um ser humano, não perca sua essência meu anjo, quando você está acordado eu tenho medo de chegar até você mas, lembre de uma coisa, eu te amo!” Disse minha mãe chorando que saindo do quarto chorei, que a tempo eu estava segurando. Minha vontade era de abraçá-la, mas Ducy estava orgulhosa pela minha atitude, ela dizia que eu estava agindo como um homem, e não podia pôr a perder tudo, e eu já sabia que ela estava na minha. Sabia porque uma madrugada na praça ela me fez uma oral, foi a primeira vez que eu tinha chegado mais perto do sexo. Ela me fez gozar na boca dela, quer maior prova de interesse numa pessoa? Ela me amava. Eu estava louco por ela, foi ela quem me apresentou o craque, o pó, a relaxante maconha, ela falava assim, “este é o ar que respiro”, se referindo ao craque, “sem ele não sou ninguém.” É! Ela chamava o craque como seu ar, sua vida. Ducy me ensinou muita coisa: que família destrói a gente, que não podemos confiar na nossa própria mãe, e sem falar dos prazeres e as alegrias que eu encontrei. 
A gente já usava de tudo, fumava, cheirava e injetava.
Era super legal, fazíamos uma rodinha de amigos e com a seringa passa um por vez para se picar e nossa era tudo. No momento pelo menos era tudo, por que depois era muito triste, dava vontade de morrer, de chorar, de gritar, não sei, o tempo foi passando e percebi que era muito artificial aquela felicidade. Até namorar Ducy era um sentimento artificial. Resolvi sair de casa, minha mãe implorou que eu ficasse, eu disse que não e mudei para o morro junto com a Ducy, ficar lá para que? se toda jóia da vovó tinha acabado e minha mãe não tinha mais dinheiro. Um dia ela foi até o morro me abraçou dizendo que sua vida havia acabado perguntou se eu não queria me internar, se não estava precisando de ajuda. Gritei com ela, e disse que não era um louco e que tudo estava sob controle, eu só queria viver. Pedi que fosse embora e não voltasse mais. Não era o que eu queria, porque ver minha mãe ali foi muito bom, mas eu e a Ducy fizemos um pacto de não vermos mais nossos pais, pelo menos por um tempo. Ela saiu e dessa vez não chorou, caminhou e se virou e disse que ela estaria lá de braços abertos a minha espera, sempre! E ela foi. Eu e a Ducy estávamos com problemas financeiros e resolvemos que ela iria se prostituir, ela aceitou. Toda manhã quando ela chegava em casa a gente brigava, eu não dormia mais de tanto ciúme imaginando o que ela estaria fazendo a cada instante. Mas todo dinheiro que ela recebia não era suficiente para pagar nossas dívidas com o chefe do morro, cada dia que passava nosso consumo de drogas era maior. Então ela me arrumou algumas senhoras para eu dormir com elas, fui ajudar Ducy no mesmo trampo, mas arranjar senhoras era mais difícil, por isso ela trazia mais dinheiro do que eu. Um dia eu cheguei em casa não encontrei a Ducy e fui no chefe da comunidade fazer umas compras, eu estava exausto precisava relaxar, já era oito horas da manhã. Quando entrei no barraco dele topei-me com a Ducy e ele, o chefe transando, ela pulou e disse que estava fazendo aquilo para pagar umas dívidas atrasadas, e ele descordou falando que aquela vadia estava lá porque queria, e as dívidas iriam permanecer. Joguei todo dinheiro daquela noite em cima deles, pelados naquela cama com aquele cheiro de sexo. Desci o morro correndo, não queria ver aquela vagabunda nunca mais. Parei e pensei para onde eu poderia ir, não queria de forma alguma ir para minha casa, para dizer a verdade era para onde eu queria ir sim, mas não podia, sentei-me sentindo uma dor de cabeça muito forte, tudo o que eu queria naquele momento era o “ar” que Ducy não podia viver sem, e nem eu. Encontrei naquele dia um amigo de escola, ele era da turma. Quando ele me viu se assustou, eu estava desfigurado, eu que era um rapaz tão bonito, gostava de me cuidar, fazia academia, estudava, estava aprendendo a tocar piano com meu avô, adorava ir ao teatro com a vovó e a Dórys, cheguei até pensar em ser artista ou um músico, mas era um gigolô barato, um drogado. Perguntei se ele estava livre como eu, e ele disse que não, que como eu não, ele estava livre de verdade, disse que eu nunca mais usou droga, resolveu terminar a escola e estava fazendo faculdade, estava namorando, ele estava tão feliz, e eu ali na sua frente, sujo, magro, com olheiras, e um tique repuxando e contraindo meus lábios pela falta da droga. Pedi uma graninha para comer alguma coisa, ele me deu e disse vê se come mesmo. Peguei aquela grana e fui na casa de um camarada e comprei tudo  a única coisa que me saciava mas logo acabou e eu precisei de mais. Fui para a rua pedir durante o dia e de noite eu me prostituía, homens e mulheres, velhos ou novos, gordos ou magros para mim não tinha diferença, não fazia distinção de ninguém, mas claro a maior parte dos clientes eram homens.” 

Que vergonha falar aquilo para aquela mulher, a psicóloga. Cobri meu rosto com as mãos e falei baixinho: “Que vergonha!” E ela disse: “Não tenha vergonha, prossiga” pensei que ela não tivesse ouvido, e prossegui:

“Na primeira vez senti muito nojo, eu me lembro bem, aliás é o único que me lembro, porque por noite eu ia com mais de dez. Este primeiro era um senhor de aproximadamente cinqüenta anos, barbudo, bem gordo e cheirava mal. Nunca sentia vergonha, porque o que eu mais queria era me saciar das drogas, mas um dia encontrei minha mãe e minha irmã, ambas estavam muito abatidas, me escondi de tanta vergonha, não queria que me visse assim. As segui por algumas quadras e um rapaz bem vistoso chegou perto delas e ele beijou a mão de minha mãe e minha irmã o beijou na boca, morri de ciúme, minha garotinha estava namorando.”

Parei, não disse mais nada sobre a minha história, calado por alguns instantes não falei mais nada. De repente a chuva volta com raios e trovões que fizeram meu coração disparar. Me levantei e fiquei caminhando pela sala, fui até a mesa dela coloquei minhas mãos sobre a mesa e perguntei se ela me odiava como o mundo todo. E ela disse que não, pois não estava lá para me odiar, mas também nem para me amar. De repente ao voltar para o divã ouço a voz da minha mãe gritando pelo meu nome. “Ela está aqui! está aqui!” Eu dizia. A psicóloga me perguntou quem, e eu disse minha mãe, ela estava lá e estava me procurando. Mas depois eu ouvi: “Filho reaja, reaja meu anjo, abra esses olhos, fale comigo, por favor” achei muito estranho isso, depois ela começou a cantar minha música favorita, sentei-me no canto da sala ouvindo ela cantar minha música, a mesma que vovô cantava. Enquanto as lágrimas rolavam em meu rosto eu cantava junto com ela e sua voz sumiu ficando só a minha. Deitei-me e aquela mulher pediu que voltasse de onde parei, perguntei se podíamos parar um pouco e ela disse que não tínhamos mais tempo. E voltei a falar:

“O tempo foi passando, eu nem fazia idéia de quantos anos eu estava fora e casa, só sabia que tinha perdido muita coisa, como o crescimento da minha irmã. Eu estava cada dia mais magro, mais viciado, mais doido. Cheguei a ser preso várias vezes, mas sempre era solto. Continuei me prostituindo, claro! Era minha única sobrevivência. Saí com um homem uma vez, só que foi diferente ao invés de me levar a um motel, me levou para sua casa, e lá estava sua mulher. Pediu que eu fosse até o quarto deles e lá eu transei com ela enquanto ele assistia, logo depois ele entrou e fizemos os três. Quando terminamos, eles disseram que queria que eu morasse junto com os dois, como um filho, mas naquela condição de sempre transarmos e quando eles quisessem, eu seria um “escravo do sexo”. Me prometeram muito dinheiro e uma casa. Eu aceitei é obvio. O tempo foi passando, de dia eles me algemavam e eu ficava sem comer, sem minha droga até eles chegarem. Quando eles chegavam primeiro me batiam, depois eu tinha que transar com eles, não agüentava mais, era um inferno. De fim de semana eles davam festinhas para vários convidados e eu era a atração da noite, tinha que transar com todo mundo e fingir que estava gostando se não eu apanhava. Um dia consegui fugir, mas quando cheguei na segunda quadra o Seu Jorge, o dono da casa, parou o carro e perguntou onde eu estava indo, me colocou no carro e me deu vários socos na cara e perguntava onde seu escravo estava indo. Eu chorei pela primeira vez na sua frente, quando ele percebeu que eu chorava, apanhei mais. Chegamos em casa e ele me trouxe arrastado pelo jardim, eu me agarrei a uma pedra e ele perdeu o equilíbrio e caiu, assim que caiu peguei aquela pedra e dei na sua cabeça com tanta raiva, batia, batia até ver que ele não se mexia mais. Eu o matei! Nunca tinha matado ninguém, eu não queria, é sério. Ele não cumpriu nada do que prometeu. Eu fugi e fui direto para o morro, ia pedir que Ducy me deixasse ficar lá por um tempo. Quando cheguei lá, ouvi Ducy gritando. Entrei no barraco, e ela estava muito magra e sangrando, cheguei perto e ela gritou para que eu me afastasse dela, pediu que não chegasse perto do seu sangue. Olhou nos meus olhos e disse que estava morrendo, que tinha aids. Eu odiava esta palavra. Pediu para que eu mudasse a minha vida, parasse com tudo e voltasse a minha família, que ela não faria o mesmo porque já não dava mais. Eu a abracei e fiquei ali, ela ficou calada todo instante. De madrugada ela começou a se retorcer e eu acordei, ela me olhou, pediu perdão e morreu. Apesar de tudo eu a amava, foi meu primeiro amor, aquele que nunca vamos esquecer e nem deixar de amar. Ela morreu em meus braços, ela ainda de olhos abertos esperava meu perdão, disse que não tinha que me pedir perdão de nada, e se minha vida tinha tomado outro rumo o culpado fui eu. E ela puxou o ar, se retorceu inteira e morreu. Em prantos eu disse: “Não morra, eu só tenho você, por favor não me deixe, não seja egoísta, então me leve junto” caí de joelhos e disse num só grito: “Nãããão!” . Vieram várias pessoas, eu pedi que fossem embora, que me deixassem ali com minha mulher, lutei para que não levassem seu corpo, mas não adiantou. Depois me sentei num canto daquele barraco, em meio a escuridão e passei toda aquela noite sem me mover daquele lugar, foi a primeira vez que pensei de como estava a minha vida, pensei em como eu tinha sido fraco, em como eu fui egoísta com as únicas pessoas que me amavam de verdade, lembrei quase pela manhã que minha mãe tinha dito que estaria de braços abertos a minha espera, e pensei naquele termo que ela tinha usado, que eu era a herança que Deus tinha dado a ela e que nunca desistiria de mim. Mas o que ia adiantar ela nunca desistir, se eu já não acreditava mais numa solução para a minha vida. Era o fim, eu cheguei ao fundo do posso. Não sei o que pode ser pior.”

Parei de falar e pedi a psicóloga que  me deixasse ir embora, eu estava morrendo de saudade de minha mãe, queria muito ver minha irmã e minha avó, eu só tinha elas agora. Ela disse para eu continuar. Falei que não queria mais, que queria ver minha mãe, ela disse que em pouco tempo eu ia ver, disse que era para eu continuar, pois estava chegando a minha hora. “Hora de ir embora?” perguntei. “Sim, de ir embora para sempre”. Meu Deus, ir embora e rever a minha família, era tudo o que mais queria, ela disse que eu tinha que falar, não podia parar e falando alto em um tom de nervosismo e apreensão pediu que voltasse a história, fiquei assustado confesso, e continuei:

“Eu não tinha pensado, mas se ela tinha acabado de morrer de aids, era bem provável que eu também teria. Resolvi pedir ajuda a minha mãe, não tinha coragem, eu fiquei meses me preparando para ir em sua casa, mas nesse tempo me prostituindo, dormindo na rua, e usando muita droga. Fiquei três dias sem me levantar da calçada, eu estava muito mal e cheguei a ter convulções. Acordei um dia e caminhando me arrastando pelas ruas fui em direção a minha casa, a minha família, naquele dia enquanto eu andava vomitava sangue. Quando cheguei em casa, minha mãe abriu a porta e eu disse: “não me abraça tenho aids.” Antes de pedir perdão, antes de dizer que eu amava, antes de tudo, minha vista escureceu, e não me lembro de mais nada, só me lembro de ter parado aqui. Não sei nem como, nem o porque. Não sinto mais dor, minha roupa, o que está acontecendo?”

Neste instante olhei para o lado, e as paredes começaram a se desfazer, e de repente estava em uma sala branca e haviam pessoas, e vi minha mãe sentada ao lado de uma maca de hospital chorando e de cada lado estavam, minha avó e minha irmã, também choravam muito. Quando voltei para a mulher da sala, ela estava vestida com roupa de juíza e a sala era um tribunal, voltei a observar minha mãe, tentei me aproximar, só queria pedir perdão, dizer que eu a amava, e que fui fraco, mas tinha uma barreira, como se fosse um vidro, que não me deixava aproximar-me. Mas cheguei o mais perto e vi que quem estava na maca, ERA EU. Me vi deitado, “Meu Deus” eu gritava. Voltei para aquela mulher, para pedir uma explicação, e ela disse: “Culpado!” batendo três vezes um martelindo de madeira na mesa. De repente um barulho, quando olhei, minha mãe estava gritando abraçando aquele corpo, era o meu corpo. Os médicos entraram desesperados, tirando minha mãe daquele lugar, ela se recusava, ela queria ficar do lado daquele corpo, olharam nos aparelhos e cobriram meu rosto com um lençol azul claro e todos começaram a sumir e tudo virou trevas, tudo virou solidão, amargura, depressão, arrependimentos, tristeza, saudades, medo, choros e prantos, dor, muita dor, tudo virou morte! Tudo virou nada. Não culpo ninguém, nem a Ducy, que foi uma vítima como eu, nem a galera da escola, nem ao homem de preto, que nos vendia as coisas na porta do colégio, nem ao dono do bar, que nos vendia bebidas, apesar da idade. Se tem um culpado, esse culpado sou eu. É a minha fraqueza, não soube lidar com a vida, não passei nesse teste de sobrevivência. Fui covarde. Eu tinha tudo, mas preferi o nada.
Penso em cada coisa, penso no amor da minha família, dos nossos momentos juntos, dos abraços, dos carinhos, dos conselhos ignorados, e isso se perpetua, como eu queria voltar no tempo, fazer diferente, essas imagens me vêem e vão a cada minuto, se é que existe tempo aqui. Está escuro e faz frio. Não existe nada aqui, só eu e as imagens, os fatos, e muito arrependimento. Só posso ver o que está na minha mente, nada mais. Alguém? Por favor, me tirem deste lugar! Ninguém! Só ouço a minha voz.


Fim

Lell Trevisan